Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se este chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
- Maria Bethânia
A vida é clichê: Carpe Diem. Ter uma “casa no campo”. Ter um amigo guardado no lado esquerdo do peito. Sonhar em viver de amor. Ter um ombro para chorar. Assistir Comédia Romântica. Chorar e dizer que ama todo mundo quando se está bêbado. Comer chocolate na depressão. Viver as coisas simples. Cantar Wando. Comer acarajé com Coca-Cola. Pedir a mão em casamento na Torre Eiffel. Cheiro de chuva. Passar férias na Bahia. Happy end. Vivendo e aprendendo. Falar do clima no elevador. Novela de Manoel Carlos. Cresça e apareça. Cantar “Andança” em luau. Tocar “Eu sei que vou te amar” em serenata. Mandar flores no dia seguinte. Comer pizza no domingo à noite. Amarrar fitinha do Senhor do Bonfim. Começar dieta na segunda-feira. Jurar que nunca mais vai beber. Escrever cartão no Dia dos Namorados. Pintar o dente de preto no São João. Se vestir de mulher no carnaval. Falar “Sou careta” pra quem oferece um baseado. Ouvir “Estou com o sistema nervoso” do porteiro. Gritar “Toca Raul!” em show. Namorar no sofá da sogra. Pichar o asfalto pra namorada. E este texto clichê. (Matheus Tapioca) via @jackietequilaaaA VIDA É CLICHÊ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?